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Talvez a mágica estivesse na
simplicidade. Na ficção. Na descoberta.
A volta do cinema da Fundação Joaquim Nabuco com tecnologias modernas de som faz pensar o quadro do mercado cinematográfico no Recife.
Não há magia no atual panorama
dos cinemas de bairro na cidade. É difícil olhar pra trás e acreditar que um
dia as pessoas iam naquele cinema da calçada, esperavam ansiosas pra ver a
mocinha e o vilão emocionando em preto e branco. Arrancando risos e lágrimas de
um público extremamente conservador e tradicionalista, no início do século XX. No
contexto atual, lembrar da quantidade de cinemas de bairro que existiram na
capital soa no mínimo estranho.
Dois curiosos fatos devem ser
destacados. O primeiro é que, atualmente,
ir ao cinema pode ser resumido em três palavras: coca-cola, shopping center e
fast-food. O filme vem em segundo, ou terceiro plano. Afinal, muitas vezes não
foi planejado sair de casa para ir ao cinema, que se torna um entretenimento
secundário. Um lugar para sentar e descansar das compras. Você diz que vai ao
cinema e as pessoas te perguntam “em qual shopping?”.
A culpa da queda de popularidade
dos cinemas de bairro pode ser atribuída a vários fatores. Novas tecnologias
(Videocassete, TV...). Comodidade dos shoppings onde se tem a ideia de encontrar
tudo em um só lugar. Medo da violência nas ruas... É assim que funciona a
engrenagem que move o mercado. Dura realidade, o cinema de bairro tornou-se
obsoleto.
Mas o que impressiona é a
aceitação do público que vai se rendendo e se lançando na rede de produções
americanas que infestam as salas dos atuais cinemas (assim como as emissoras de
televisão). Como se toda a produção mundial se resumisse aos Estados Unidos e
um ou outro filme nacional. Claro, se existe essa oferta dos shoppings, é por
que há uma demanda.
Nesse contexto de monopólio cinematográfico, onde está o
público apreciador de um cinema mais democrático e de produções pautadas no
enredo e não apenas em show de efeitos especiais computadorizados? (Nada contra
filmes com efeitos) Será que deixaram de ir ao cinema? Será que não existem
mais pessoas que apreciam a sétima arte produzida em âmbito mundial, não apenas
nos EUA?
Desta forma, pensemos no segundo
fato curioso, grande parte (a outra
parte são elites intelectuais) do público que aprecia o cinema que outrora era
tradicional, o real cinema popular, agora é considerado alternativo. Houve
uma inversão de valores culturais, nada vantajosa. Tanto o cinema São Luiz
quanto o cinema da fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), no meio da cidade, estão
perto do povo. Mas as pessoas preferem se locomover para os distantes cubos
fechados dos shopping centers.
Agora é alternativo expandir o
leque de produções e buscar filmes de outros países, é alternativo visitar o
cinema que está bem no meio de sua cidade e que faz parte da própria história
dela. É alternativo gostar de um filme pelo enredo e pela capacidade de
emocionar e fazer refletir. O comum é o medo de ser assaltado indo ao cinema
popular, é comum se limitar a produções da cultura americana. É comum trocar o
ar livre da cidade pelo ar-condicionado dos shoppings. É comum trocar a pipoca
da carrocinha ali na esquina pelos industrializados da praça de alimentação. É
comum e popular... O contrário disso são alternativas. É alternativo.
Tudo para consumir a sensação de
segurança que o shopping traz na sociedade do medo. Tudo para consumir o último
lançamento. O filme antigo é ruim, é ultrapassado. Os que tratam filmes como
produtos obsoletos não percebem que obsoleto mesmo é quem tem esse tipo de
pensamento.
É preciso ocupar a cidade, e
saber utilizar e valorizar os equipamentos de lazer oferecidos. Afinal de
contas, a cidade é nossa. O Recife é nosso.
Essa semana, o Cinema da Fundação
Joaquim Nabuco volta com produções recentes e novidades como a tecnologia
digital e som dos mais modernos. Com os preços em conta (R$ 8,00 inteira e R$
4,00 a meia entrada) segue em cartaz a estreia The Bling Ring – A Gangue de
Hollywood e produções pernambucanas como O Som ao Redor, de Kleber Mendonça
Filho.
Confira a programação completo no link abaixo:
http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=247&Itemid=227
